A educação e os educadores do futuro
Eduardo Benzatti
Resumo
A educação do futuro depende dos caminhos que optarmos no presente. Os educadores devem colocar a questão fundamental: qual a educação queremos construir para as futuras gerações? A transformação da atual visão e concepção de educação passa pela transformação do paradigma - simplificador - dominante hoje. A educação é um dos seus produtos, ela é gerada e gera esse paradigma. O artigo apresenta, de forma resumida e comentada, a posição do filósofo e pensador da complexidade Edgar Morin. Nesses tempos sombrios devemos (re)ler Os sete saberes necessários à educação do futuro que nos incitam a refletir sobre o nosso papel de educadores.
Palavras-chave:
Educação do Futuro; Conhecimento Transdisciplinar; Teoria da Complexidade; Ética Planetária.
Abstract
The education of future depends on the paths that we choose in present time. The lecturers must take place the fundamental question: what the education we want building to the next generations? The changing of the actual vision and conception of education pass through the transformation of the model – simplistic – which domains nowadays. The education is one of his products, it’s originated and origins this model. The article introduces, in resuming way and commented, the position of philosopher and thinker of complexity Edgar Morin. In this darkest times we must reading again Os setes saberes necessários à educação do futuro that incite us to reflect about our participation.
Keywords: Education of future; Transdisciplinary Knowledge; Complexity Theory; Planetary Ethic.
“(...) sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.
Blaise Pascal (1623-1662), Pensamentos.
“Quem educará os educadores?” Esta pergunta instigante é feita pelo filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) em uma de suas teses sobre Feuerbach 1 e lembrada pelo pensador francês Edgar Morin em seu livro Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2 Deixemos em suspenso a questão e vamos recuperar, em linhas gerais, o pensamento de Morin.
Este trabalha com a idéia de que o conhecimento - e suas estratégicas cognitivas, ou seja, as formas como operamos com o pensamento para mediar e apreender a realidade - deve ser constantemente complexificado, transformado em um conhecimento complexo. O que é isso? Vejamos: a realidade - todas as coisas, os seres e os fenômenos que nos cercam e com os quais agimos e retroagimos - é por natureza um fenômeno complexo, à medida que não podemos vivê-la de forma fragmentada, compartimentada. O real - e é bom lembrar que nossa vida está inserida nele - é constituído por intermináveis relações entre as partes que o constitui. Vamos pensar no ser humano. Vivemos inseridos numa rede de relações extremamente complexa. Somos - ou tentamos ser - o profissional bem sucedido, o bom pai ou a boa mãe, o filho dedicado, somos namorado ou namorada, marido ou mulher, amigo ou amiga e tantas outras possibilidades de existência, mas somos tudo isso simultaneamente, somos tudo ao mesmo tempo agora. No dia-a-dia vivemos nossa existência cumprindo - ou representando - todos esse papéis sociais juntos. Ninguém chega no local de trabalho e diz: “Bom, agora vou deixar de ser fulano de tal e passarei a ser somente o profissional tal”. A vida, e suas relações sociais, culturais, amorosas e profissionais é muita mais rica. Nós mesmos, embora sejamos únicos - nossa individualidade é irredutível -, somos também múltiplos! Vale lembrar a frase do escritor mexicano Octávio Paz: “Cada indivíduo é único. Cada indivíduo se compõe de inúmeros indivíduos que ele não conhece”.

1 Ludwig Feuerbach (1804-1872). Filósofo “materialista” alemão defendeu o ateísmo e influenciou os fundadores do marxismo. Mas foi criticado por negligenciar as bases materiais da sociedade (em especial, o processo de produção), privilegiando em suas análises sobre o desenvolvimento da humanidade, as diferentes formas de consciência religiosas. Acusado de idealista, Feuerbach não teria dado importância, segundo os marxistas, ao processo revolucionário de transformação social - a práxis revolucionária. Ver: MARX, Karl. “Teses sobre Feuerbach” In: Os pensadores. P. 49-53.
2 MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2000.