sábado, 19 de janeiro de 2013

Texto retirado do Manual Prático do Psicopedagogo Clínico

Manual prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico

Provas operatórias

Por meio da aplicação das provas operatórias, teremos condições de conhecer o funcionamento e o desenvolvimento das funções lógicas do sujeito. Sua aplicação nos permite investigar o nível cognitivo em que a criança se encontra e se há defasagem em relação à sua idade cronológica, ou seja, um obstáculo epistêmico.

A aplicação das provas operatórias tem como objetivo determinar o nível de pensamento do sujeito realizando uma análise quantitativa, e reconhecer as diferenças funcionais realizando um estudo predominantemente qualitativo. (VISCA, p. 11, 1 995)

Uma criança com dificuldades de aprendizagem poderá ter uma idade cognitiva diferente da idade cronológica. Esta criança encontra-se com uma defasagem cognitiva e que pode ser a causa de suas dificulda- des de aprendizagem, pois será difícil para a criança entender um conteúdo que está acima da sua capacidade cognitiva. Como observa Sampaio, algumas crianças chegam com a queixa de déficit de atenção e, quando aplicamos as provas operatórias, observamos defasagem cognitiva, mas não observamos o défícit de atenção como transtorno. Isto significa que, se o conteúdo estiver acima da sua idade cognitiva, a criança poderá desviar seu olhar para outros interesses que não os da sala de aula, (2009, p. 47)

Visca (1995, p. 11) nos alerta que as provas nem sempre são adequadamente entendidas e utilizadas de acordo com todas as possibilidades que as mesmas possuem. Isto se deve, talvez, a uma certa dificuldade de sua correta aplicação, evolução e extração das conclusões úteis para entender a aprendizagem.

Desta forma, é preciso entender que, em qualquer pergunta errada, pode haver alteração no resultado das provas. O psicopedagogo precisa estar bastante seguro na hora de sua aplicação. É claro que todo psicopedagogo iniciante pode sentir-se inseguro inicialmente. Sugiro, portanto, que leve as instruções e as perguntas digitadas para não cometer nenhum erro.

Ao aplicar as provas, deve-se evitar aplicar várias provas de conservação em uma mesma sessão, para que não haja uma possível contaminação das respostas do sujeito. É interessante que se alterne entre provas de conservação, classificação e seriação.

Os resultados serão mais bem compreendidos se anotarmos detalhadamente todas as respostas do cliente, inclusive suas reações, postura, fala, inquietações, reação diante do desconhecido, seus argumentos, sua organização, de que maneira manipula e organiza o material.

Para a avaliação, as respostas são divididas em três níveis:

• Nível 1: Não há conservação, o sujeito não atinge o nível operatório nesse domínio.

• Nível 2 ou intermediário: As respostas apresentam oscilações, instabilidade ou não são completas. Em um momento, conservam, em outro não.

• Nível 3: As respostas demonstram aquisição da noção, sem vacilação.

Algumas crianças não obtêm êxito em apenas uma prova e apresentam acerto operatório nas demais. Isto não significa que ela esteja em defasagem. É preciso analisar o resultado geral das provas.

Pode-se verificar se há um significado particular para a ação dessa prova que sofra uma interíerência emocional.

Encontramos crianças, filhos de pais separados e com novos casamentos dos pais, que só não obtinham êxito na prova de intersecção de classes. Podemos ainda citar crianças muito dependentes dos adultos que ficam intimidadas com a contra-argumentação do terapeuta, e passam a concordar com o que ele fala, deixando de lado a operação que já são capazes de fazer. (WEISS, 2003, p. 111)

PROVAS OPERATÓRIAS

Para criança com pais separados, a prova de dicotomia poderá ser uma prova difícil de ser realizada, se ela não estiver lidando bem com a situação, porque envolve o processo de separar e, depois, colocar junto, separar novamente e tentar juntar de novo os semelhantes e, depois, separar mais uma vez para tentar novamente colocar juntos os semelhantes.

Para ilustrar como o emocional pode interferir no resultado da prova, citarei o caso de uma criança que atendi. Já estávamos na terceira sessão e iria aplicar as demais provas operatórias que havia selecionado. Nesta terceira sessão, ele se mostrou tenso e preocupado. Depois de conversarmos, ele revelou que sua mãe, naquele momento, estava fazendo uma cirurgia e que estava preocupado querendo estar ao seu lado. A mãe esqueceu de me avisar da cirurgia. Repeti as provas em uma outra sessão, e seu desempenho foi melhor.

É possível observar o nível intelectual alcançado pelo sujeito por meio dos resultados das provas. Em relação a crianças com alguma deficiência mental, Weiss nos diz que, no caso de suspeita de deficiência mental, os estudos de B. Inhelder (1944) em El diagnóstico deirazonamiento en los débiles mentales mostram que os oligofrênicos (QI 0-50) não chegam a nenhuma noção de conservação; os débeis mentais (QI 50-70) chegam a ter êxito na prova de conservação de substância; os fronteiriços (QI 70-80) podem chegar a ter sucesso na prova de conservação de peso; os chamados de inteligência normal “obtusa” ou “baixa”, podem obter êxito em provas de conservação de volume, e às vezes, quando bem trabalhados, podem atingir o início do pensamento formal.

APRESENTAÇÃO DAS PROVAS OPERATÓRIAS

Provas de conservação de:

— Pequenos conjuntos discretos de elementos

— Superfície

— Líquido

— Matéria

— Peso

— Volume

— Comprimento

Manual prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico

Provas de classificação:

— Mudança de critério

— Quantificação da inclusão de classes

— Interseção de classes

Prova de seriação:

— Seriação de palitos

Provas de espaço:

— Espaço unidimensional

— Espaço bidimensional

— Espaço tridimensional

Provas de pensamento formal:

— Combinação de fichas

— Permutação de fichas

— Predição

SELEÇÃO DAS PROVAS PÁRA PENSAMENTO OPERATÓRIO CONCRETO DE ACORDO COM A IDADE

Sete anos

— Seriação

— Conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos

— Conservação de massa

— Conservação de comprimento

— Conservação de superfície

— Conservação de líquido

— Espaço unidimensional

CAPÍTULO 3 - 3 E 4 SESSÃO - PROVAS OPERATÓRIAS

Oito a nove anos

— Conservação de massa

— Conservação de comprimento

— Conservação de superfície

— Conservação de líquido

— Conservação de peso

— Mudança de critério

— Quantificação de inclusão de classes

— Interseção de classes

— Espaço unidimensional

— Espaço bidimensional

Dez a onze anos

— As de oito anos mais a de Conservação de volume.

SELEÇÃO DAS PROVAS PÁRA PENSAMENTO FORMAL

Acima de 12 anos

— Inicie com a conservação de volume. Se conseguir, deverão ser aplicadas as provas de pensa mento formal, se não conseguir, aplicam-se as provas anteriores.

— Combinação de fichas

— Permutação de fichas

— Predição

— Espaço tridimensional

QUADRO DE RESUMO DAS PROVAS OPERATÚRIAS BASEADO EM UMA PROPOSTA DE VISCA

Seis anos: seriação; Conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos.

Sete anos: seriação; conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos; conservação de matéria; conservação de superfície; conservação de líquido; mudança de critério, inclusão de classes, espaço unidimensional.

Oito a nove anos: conservação de peso (se não conseguir, aplique a de matéria); conservação de comprimento; conservação de superfície; conservação de líquido; mudança de critério; quantificação da inclu são de classes; interseção de classes, espaço bidimensional.

Espaço unidimensional; espaço bidimensional (9 anos).

Dez a onze anos: conservação de volume, peso, interseção.

ARGUMENTOS QUE PODERÃO SER UTILIZADOS PELO SUJEITO AVALIADO

É muito importante que o psicopedagogo sempre pergunte, após cada resposta dada: Como sabe? Pode me explicar? Para observar o pensamento do entrevistado, que argumentos utiliza.

Se você deixar de perguntar, perderá a oportunidade de observar como ele está pensando, bem como sua capacidade de argumentação e expressão verbal.

Exemplos:

• Argumento de identidade: “Tem a mesma quantidade porque não tirou nem colocou nada.”

• Argumento de reversibilidade: “Porque se voltar a fazer uma bola, terá a mesma quantidade de massa que esta outra bola.”

• Argumento de compensação: “Este vaso é mais alto, mas este é mais fino.” “este é mais alto, porém este é mais baixo.” Ou: “As fichas só estão mais separadas.”

A criança poderá conservar, mas poderá também apresentar dificuldade nas argumentações. Esta é uma pessoa que provavelmente apresenta dificuldades em explicar sobre o que leu, dificuldade com síntese textual.

ESTRATÉGIAS DO ENTREVISTADOR

Visca propõe que o psicopedagogo coloque em prática algumas estratégias no momento da aplicação das provas para que não fique nenhuma dúvida sobre o nível cognitivo identificado.

Fazer o pedido de estabelecimento da igualdade inicial:

O entrevistado deverá reconhecer a igualdade inicial das bolinhas de massa, das quantidades de líquido nos dois copos, no conjunto de fichas, na superfície verde, ou reconhecer a diferença inicial no caso da prova de comprimento; do contrário, não será possível dar continuidade à prova.

Fazer a pergunta de reasseguramento:

Antes de dar continuidade à prova, é importante confirmar se o sujeito estabeleceu mesmo a igual dade inicial ou a diferença inicial. Por exemplo: logo depois que o entrevistado fizer as bolas (conservação de massa), depois dos líquidos serem colocados nos dois vasinhos iniciais iguais (conservação de líquido), ou após ter descrito sobre as diferenças das correntes (conservação de comprimento), ou sobre a igualda de das superfícies (conservação de superfície), bem como na conservação de peso e volume, perguntamos:

E então, como temos em quantidade de massa ou de líquido, será que neste há mais, menos ou há a mesma quantidade que neste outro? Ou como são então as correntes, elas possuem o mesmo tamanho ou uma é menor ou maior do que a outra? Ou então, como são as superfícies, elas possuem o mesmo tamanho ou uma é menor ou maior que a outra?

Caso a criança não perceba a igualdade ou diferença inicial, não continue a prova.

Fazer a pergunta provocadora de argumentação:

Fazemos a pergunta quando o entrevistado responde sem argumentar; por exemplo, se perguntarmos se ele acha que tem mais, menos ou a mesma quantidade, ele poderá responder apenas que tem mais, porém não explica por quê. Então fazemos a pergunta provocadora para que ele argumente: Como sabe? Pode me explicar? Por que você acha que tem mais?

Realizar a pergunta sobre o retorno empírico:

Antes de realizar o retorno empírico, pergunta-se ao entrevistado, por exemplo: “Se você voltar a fazer uma bola com esta salsicha, ela ficará com a mesma quantidade que esta outra bola, ficará com mais ou com menos?” Espere o entrevistado responder antes de retornar à forma inicial.

Realizar sempre o retorno empírico antes da próxima modificação:

Aqui se realiza concretamente o retorno ao estado inicial. Depois, passa-se para a próxima modificação.

Fazer as contra-argumentações:

Se a criança conservar, deveremos inverter a pergunta para observar se ela mantém a argumentação. “Mas veja, esta salsicha está fininha, será que ela não tem menos quantidade de massa que na bola?” A criança que já possui a noção de conservação não mudará sua opinião.

Se a criança não conservar, faça-a lembrar da situação anterior em que a bola se encontrava: “Você se lembra de que, quando era bola, você havia me dito que tinham a mesma quantidade?” Se ela responder que tem a mesma quantidade, peça-lhe que explique por que agora mudou de opinião. A criança poderá dizer que tem a mesma quantidade depois da contra-argumentação, mas está oscilando na opinião, encontrando-se no nível de transição entre o pré-operatório e o operatório concreto.

Estas contra-argumentações valem para todas as provas de conservação.

Fazer contra-argumentações com terceiros:

“Uma vez um menino me disse que, na salsicha, havia menos do que na bola, você acha que ele estava certo ou errado?”

Faça esta contra-argumentação em todas as provas de conservação.

Pergunta de coticidade:

É realizada na prova de conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos. Ao final da prova, tapa-se com as mãos uma das coleções de fichas e pergunta-se: “Conte as fichas. Pode me dizer quantas fichas há embaixo de minhas mãos?” “Como sabe?”

Proposta de verificação empírica:

Podemos sugerir a comprovação de uma hipótese do entrevistado de maneira concreta, por exemplo:

pesar, introduzir dois volumes iguais em recipientes iguais que contenham igual quantidade de líquido. Isto deverá ser feito, se necessário. Nem sempre, isto é preciso.

APLICAÇÃO DAS PROVAS OPERATÓRIAS

Estas perguntas poderão ser digitadas, xerocadas e levadas para a sessão para anotar as respostas da Criança, caso o psicopedagogo esteja inseguro

As perguntas aqui apresentadas foram baseadas no livro de Jorge VisCa, Provas Operatórias.

Não iremos nos aprofundar na teoria como mencionamos anteriormente. Nosso objetivo aqui é mostrar como aplicar as provas. Para tanto o leitor poderá recorrer aos livros citados nas referências.

Conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos

Materiais:

- dez fichas vermelhas

- dez fichas azuis

Cada um deve ter 2cm de diâmetro

Coloca na mesa dez fichas vermelhas e dez azuis.

P — O que você pode me dizer sobre estas fichas?

S: _______________________________________________________________________________________

P — Escolha uma cor de que você goste mais.

S: _______________________________________________________________________________________

Coloque sete fichas em frente ao entrevistado e deixe três de lado.

P — Ponha as suas fichas na mesma quantidade que eu coloquei as minhas.

S: _______________________________________________________________________________________

P — Então, temos a mesma quantidade de fichas azuis e vermelhas ou não?

S________________________________________________________________________

Não continue até que a criança perceba que tem a mesma quantidade.

Estabelecimento da igualdade inicial. Arrume as fichas termo a termo.

Distancie suas fichas, separando-as de forma que fiquem mais largas.

P — E agora? Eu tenho mais, menos ou a mesma quantidade de fichas que você?

5

P — Como sabe? Pode me explicar? (Pedido de argumentação)

S__________________________

Contra-argumentação:

(Se for conservador) P — Essa linha está mais comprida, será que não tem mais fichas?

s

(Se não for conservador) P — Você se lembra de que antes as duas fileiras tinham a mesma quantidade? O que você acha agora?

S

Retorno empírico: O psicopedagogo coloca as fichas termo a termo.

P — E agora? Temos igual quantidade ou uma tem mais e outra menos?

S

Manual prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico

P — Como sabe? (Pedido de argumentação)

5

Contra-argumentações com terceiros:

(Se for conservador) P — Um menino da sua idade me disse que aqui (curta) havia menos. Será que ele estava certo ou não?

5

(Se não for conservador) P — Um menino da sua idade me disse que as duas iriam ter a mesma quantidade. Será que ele estava certo ou não?

Retorno empírico: Termo a termo.

P — E agora? Temos igual quantidade ou uma tem mais e outra menos?

5

Cubro com as mãos as minhas fichas.

P — Você pode contar suas fichas? Quantas fichas você acha que eu tenho debaixo da minha mão?

5

P — Como sabe? (Pedido de argumentação)

s______________________________________________

Retorno empírico: Coloco frente a frente.

P — Como temos agora?

s

P — Conte quantas fichas sobraram com você (escondo as minhas na mão). Quantas eu tenho na mão? Responda sem contar.

s____________________________________________________________________

P — Como sabe? (Pedido de argumentação)

S____________________________________________________________________

Coloco as sete fichas em círculo.

P — Coloque as suas ao redor das minhas com a mesma quantidade.

s

P — E agora? Minhas fichas têm mais, menos ou a mesma quantidade que as suas?

5

P — Como sabe? (Pedido de argumentação)

5

P — Se as fichas fossem caramelos e você comesse todas as suas balas e eu comesse todas as minhas, comeríamos a mesma quantidade ou um comeria mais e outro menos?

S

(Se for conservador) P — Você não acha que estas fichas de dentro possuem menos quantidade que estas de fora? Explique-me.

s

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(Se não for conservador) P — Você não acha que estas fichas de dentro e as de fora possuem a mesma quantidade? Explique-me.

s

Argumentos utilizados na conservação:

Argumento de identidade argumento de compensação argumento de reversibilidade nenhum

Avaliação:

Nível 1 — não conservador — não conserva em nenhuma das modificações (até quatro/cinco anos)

Nível 2 — transiçào — ora conserva, ora não conserva.

Nível 3 — conservador — conserva em todas as modificações (desde cinco anos)

Nível em que cada criança se encontra: ( ) 1 ( ) 2 ( ) 3

Conservação de matéria (massa)

Material:

Duas massas de modelar de cores diferentes cada uma, cujo tamanho possa fazer duas bolas de aproximadamente 4cm de diâmetro.

P — O que você pode me dizer sobre este material?

s

Mostre as duas massas de cores diferentes.

P — que você fizesse duas bolas de massa com a mesma quantidade (dê as massas para a criança fazer as bolas de massa).

s

Procura-se estabelecer a igualdade inicial.

P — As bolas têm a mesma quantidade de massa ou uma tem mais e outra menos?

s

P — Como sabe? Pode me mostrar? (Pedido de argumentação)

s

Caso a criança diga que não tem a mesma quantidade:

P — O que você pode fazer para que fiquem as bolas com a mesma quantidade de massa?

5

Enquanto a criança não perceber a igualdade inicial, não prossega com a prova.

Faça a salsicha com a bola experimental.

P — Esta salsicha tem mais, menos ou a mesma quantidade de massa que nesta bola?

S

P — Como sabe? Pode me explicar? (Pedido de argumentação)

s

Contra-argumentação:

(Se for conservador) P — Mas a salsicha é mais larga, você não acha que tem mais quantidade de massa

que na bola?

S

(Se não for conservador) P — Você se lembra de que antes as duas bolas tinham a mesma quantidade? O que você acha agora?

s

Retorno empírico: P — E se eu voltar a fazer uma bola com esta salsicha, teremos a mesma quantidade ou uma terá mais e outra menos? (Espere ele responder antes de retornar a fazer as duas bolas)

s

AS TEORIAS QUE EMBASAM O TRABALHO PSICOPEDAGOGIA

Conhecer os fundamentos da psicopedagogia implica refletir sobre as suas origens. Do seu parentesco com a Pedagogia, a psicopedagogia traz as indefinições e contradições de uma ciência cujos limites são os da própria vida humana. Da Psicologia, a psicopedagogia herda o velho problema paralelismo psicofísico, um dualismo que ora privilegia o físico (observável), ora o psiquismo( a consciência).

O autores brasileiros Neves, Kiguel, Rubinstein, Weiss, barone e outros, assim como os argentinos Fernando Pain, Visca, Muller, são unânimes quanto á necessidade de conhecimentos de diversas áreas que articulados, devem fundamentar a constituição de uma teoria Psicopedagogia, por, exemplo:

A Psicanálise encarrega-se do mundo inconsciente, das representações profundas, operantes da dinâmica psíquica que se expressa por sintomas e símbolos, permitindo-nos levar em conta a face desejante do homem;

A Psicologia Social encarrega-se da constituição dos sujeitos, que responde as relações familiares, grupais e institucionais, em condições socioculturais e econômicas especificas e que contextuam toda aprendizagem;

A Epistemologia e a psicologia genética se encarregam de analisar e descrever o processo construtivo do conhecimento pelo sujeito em interação com os outros e com os objetos;

A Lingüística traz a compreensão da linguagem como um dos meios que caracterizam e tipicamente humano e cultural: a língua enquanto código disponível a todos os membros de uma sociedade a fala como fenômeno subjetivo, evolutivo e historiado de acesso á estrutura simbólica.

Essas áreas fornecem meios para refletir cientificamente e operar no campo psicológico, o nosso campo.

PSICOLINGUÍSTICA

A comunicação não ocorre somente através de palavras escritas ou faladas. Ela acontece mediante toda e qualquer convenção pré-definida pelas partes que se comunicam. Assim, um símbolo, um sinal, um conjunto de cores ou mesmo gestos são formas de comunicação. O surgimento do pensamento verbal e da linguagem como sistemas de signos é um momento importantíssimo no desenvolvimento da espécie humana.

Sabemos que o processo de aquisição da linguagem passa por vários níveis. Desse modo, verificamos que na criança pequena existe uma fase pré-verbal no desenvolvimento do pensamento e uma fase pré-intelectual no desenvolvimento da linguagem. Antes mesmo de dominar a linguagem, a criança demonstra capacidade de resolver problemas práticos, de utilizar instrumentos e meios indiretos para conseguir seus objetivos. O choro, o riso, o balbucio têm clara função de alívio emocional, mas também servem como meio de contato social, comunicação difusa com outras pessoas.

Quando os processos de desenvolvimento do pensamento e da linguagem se unem, surge então o pensamento verbal e a linguagem racional. O ser humano passa a ter a possibilidade de funcionamento psicológico mais sofisticado, mediado pelo sistema simbólico da linguagem.

FASE DA LINGUAGEM

O desenvolvimento da linguagem depende da cultura em que o indivíduo está inserido, desde a gestação, ocorre as primeiras experiências de comunicação, pois é comprovado que os bebês tem competências auditivas ligadas a ritmicidade.

A primeira comunicação que o bebê produz é Pré-Verbal, através do choro o bebê se comunica com o mundo e partir do primeiro mês ela começa a perceber a diferença entre instintivo e involuntário e partir disto vai ficando mais enérgico a medida que se vão intensificando as necessidades do bebê. A mãe nos primeiros meses já consegue diferenciar os três tipos de choro: fome, dor, prazer. O bebê nessa fase ele ainda não consegue separar como se dão essas frustrações e é a partir disto que ela começa a diferenciar, a mãe aos poucos vai internalizando e diferenciando os diferentes tipos de choro, ou quando a criança está muito estimulada ela pode chorar (choro de prazer), a fala funciona como uma descarga emocional e o choro é o mesmo.

A Lalação (chilreio, balbucio), ao brincar com o corpo, a criança movimenta os órgãos da fala, produzidos sons diferenciados e aos poucos ela vai repetindo as palavras monossílabas que os adultos atribuem significados, por exemplo: mama – mamãe ou deira – mamadeira, e por volta dos 12 aos 20 meses, surgem as primeiras palavras com valor de mensagem completa.

A linguagem por gestos, desenvolve junto com a linguagem verbal, no qual tem por objetivo acompanhar, apoiar e tornar mais compreensível as insuficiências do discurso verbal da criança, essa fase da linguagem tem bastante a ver com a cultura onde a criança está inserida, a forma como aprende-se comunicar.

A Influência do meio familiar tem forte influência no desenvolvimento da linguagem, e a entrada precoce de crianças em escola favorece um estímulo maior na fala.

A partir dos anos em diante, seu vocabulário e repertório de palavras aumentam (monossílabas, trissílabas, e assim vai aprimorando), vale lembrar que não é só importante verificar seu vocabulário, mas também sua maturidade neurológica.

Os fatores que influenciam na linguagem são: biológicos, psicológicos e sociais.

É esperado que dos zero aos três meses, o desenvolvimento da linguagem da criança seja: vocalizações (repetições vogais e sons guturais) não linguísticas, sorriso reflexo, apresenta movimentos corporais bruscos ou acorda ao ouvir estímulos sonoro, aquieta-se com a voz da mãe e procura fonte sonora com movimentos oculares. Dos três aos seis meses, as vocalizações começam a adquirir algumas características de linguagem, entonação, ritmo e etc. Já dos seis aos nove meses, a criança consegue localizar diretamente a fonte sonora lateralmente e indiretamente para baixo, responde quando é chamada, repete sons para escutá-las...

Aos doze meses, compreende algumas palavras familiares, compreende ordens simples, usa gestos indicativos, agrupa sons e sílabas repetidas a vontade... Dos doze aos dezoito, crescimento quantitativo de compreensão e produção de palavras, identifica objetos familiares através de nomeação, já consegue identificar parte do corpo em si mesma, repete palavras familiares, tenta contar utiliza-se de palavra-frase, etc.

A criança dos dezoito aos vinte e quatro meses, localiza fonte sonora em todas as direções, presta atenção e compreende estórias, identifica parte do corpo no outro, inicia o uso de frases simples, usa gestos representantes, usa o próprio nome. Dois a três anos de idade, iniciam-se sequências de três elementos, aponta gravura de objeto familiar descrito por seu uso, aponta cores primárias quando nomeadas, compreende o “onde?” “como?” pergunta o que?, nomeia ações representadas por figuras, refere-se a si mesma em 3ª pessoa, constitui frases gramatical simples... Espera-se que a criança até aos cinco anos de idade tenha o domínio de todos os fonemas da língua.

O CAMPO DA ATUACÃO DA PSICOPEDAGOGIA

O campo de atuação do psicopedagogo refere-se não só ao espaço físico onde se dá esse trabalho, mas espacialmente ao espaço epistemológico que lhe cabe, ou seja, o lugar deste campo de atividade e o modo de abordar o seu objeto de estudo. A forma de abordar o objeto de estudo pode assumir característica especificas, a depender da modalidade: clínica, preventiva e teórica, umas articulando-se ás outras.

Na função preventiva, cabe ao psicopedagogo:

Detectar possíveis perturbações no processo de aprendizagem;

Participar da dinâmica das relações da comunidade educativa, a fim de favorecer processo de integração e troca.

Promover orientações metodológicas de acordo com as características dos indivíduos e grupos;

Realizar processos de orientação educacional, vocacional, e ocupacional, tanto na forma individual quanto em grupo.

Em relação a modalidade teórica está visa: criar um corpo teórico da psicopedagogia, com processos de investigação e diagnostico que lhe seja especifico, atreves de estudos das questões educacionais e da saúde no concerne ao processo de aprendizagem. Esses trabalho consiste numa leitura e releitura do processo de aprendizagem e do processo da não-aprendizagem, bem como da aplicabilidade e conceitos teóricos que lhe deem novos contornos e significados, gerando práticas mais consistentes.

Já na área da saúde, o trabalho é feito em consultórios privados e/ou em instituições de saúde, no sentido de reconhecer e atender as alterações da aprendizagem sistemática e/ou assistemática, de natureza patológica.

Historicamente, a Psicopedagogia nasceu para atender a patologia da aprendizagem, mas ela se tem voltado cada vez mais para uma ação preventiva, acreditando que muitas dificuldades de aprendizagens se dever a inadequada pedagogia institucional e familiar. A proposta da psicopedagogia, numa ação preventiva, é adotar uma postura critica frente ao fracasso escolar, numa concepção mais totalizante visando propor novas alternativas de ação voltadas para a melhoria da prática pedagógica nas escolas.

Segundo Lino de Macedo (1990), o psicopedagogo, no Brasil, ocupa-se das seguintes atividades: Orientação de estudos; Apropriação dos conteúdos escolares; Desenvolvimento do raciocínio; Atendimento de crianças. Ainda de acordo com o autor o atendimento psicopedagógico poderá recorrer a propostas corporais, artísticas etc.

Portanto busca-se no trabalho psicopedagógico que o profissional, leve o sujeito a se reintegrar á vida normal, respeitando as suas possibilidades e interesses, sendo neutro e mantendo a ética de sua profissão, considerando o desenvolvimento infantil a partir de uma perspectiva dinâmica e encarando o distúrbio de aprendizagem como uma manifestação de uma perturbação que envolva a totalidade da personalidade.